24 setembro 2017

da semana e do dia

Posts mais lidos da semana:
1
2
3
4
5

E do dia:
1
2
3
4
5

21 setembro 2017

Joãozinho

É apresentada a seguir a versão quase-final do livro Joãozinho.  O Eng. Vergílio Folhadela, administrador da RAR, um dos grandes mecenas do Joãozinho, aceitou escrever o Prefácio. Os direitos de autor deste livro reverterão integralmente a favor da obra do Joãozinho.


Capítulo 1      Capítulo 2      Capítulo 3      Capítulo 4      Capítulo 5      Capítulo 6      Capítulo 7
Capítulo 8      Capítulo 9      Capítulo 10    Capítulo 11    Capítulo 12    Capítulo 13    Capítulo 14
Capítulo 15    Capítulo 16    Capítulo 17    Capítulo 18    Capítulo 19    Capítulo 20    Capítulo 21
Capítulo 22    Capítulo 23    Capítulo 24    Capítulo 25    Capítulo 26    Capítulo 27    Capítulo 28
Capítulo 29    Capítulo 30    Capítulo 31    Capítulo 32    Capítulo 33    Capítulo 34    Capítulo 35
Capítulo 36    Capítulo 37    Capítulo 38    Capítulo 39    Capítulo 40    Capítulo 41    Capítulo 42
Capítulo 43    Capítulo 44    Capítulo 45    Capítulo 46    Capítulo 47    Capítulo 48    Capítulo 49
Capítulo 50    Capítulo 51    Capítulo 52    Capítulo 53    Capítulo 54    Capítulo 55    Capítulo 56
Capítulo 57    Capítulo 58    Capítulo 59    Capítulo 60    Capítulo 61    Capítulo 62    Capítulo 63
Capítulo 64    Capítulo 65    Capítulo 66    Capítulo 67    Capítulo 68    Capítulo 69    Capítulo 70
Capítulo 71    Capítulo 72    Capítulo 73    Capítulo 74    Capítulo 75    Capítulo 76    Capítulo 77

Nota: Este livro visa fazer a obra do Joãozinho, e não agravar pessoas ou instituições. Por isso, a qualquer pessoa que se possa sentir agravada pelo que no livro é escrito, peço o favor de entrar em contacto comigo para que eu possa corrigir qualquer injustiça ou imprecisão na versão impressa. Para esse efeito, já enviei esta versão às entidades oficiais em exercício que são nele mencionadas e para as quais disponho do endereço de correio electrónico.

12 setembro 2017

Diabo à Solta

O livro "Diabo à Solta - O Ministério Público em Portugal" é uma novela e ainda não está terminado. A seguinte é a primeira versão, ainda incompleta:

Capítulo 1      Capítulo 2      Capítulo 3      Capítulo 4      Capítulo 5      Capítulo 6      Capítulo 7
Capítulo 8      Capítulo 9      Capítulo 10    Capítulo 11    Capítulo 12    Capítulo 13    Capítulo 14
Capítulo 15    Capítulo 16    Capítulo 17    Capítulo 18    Capítulo 19    Capítulo 20    Capítulo 21
Capítulo 22    Capítulo 23    Capítulo 24    Capítulo 25    Capítulo 26    Capítulo 27    Capítulo 28
Capítulo 29    Capítulo 30    Capítulo 31    Capítulo 32    Capítulo 33    Capítulo 34    Capítulo 35
Capítulo 36    Capítulo 37    Capítulo 38    Capítulo 39    Capítulo 40    Capítulo 41    Capítulo 42
Capítulo 43    Capítulo 44    Capítulo 45    Capítulo 46    Capítulo 47    Capítulo 48    Capítulo 49
Capítulo 50    Capítulo 51    Capítulo 52    Capítulo 53    Capítulo 54    Capítulo 55    Capítulo 56
Capítulo 57    Capítulo 58    Capítulo 59    Capítulo 60    Capítulo 61    Capítulo 62    Capítulo 63
Capítulo 64    Capítulo 65    Capítulo 66    Capítulo 67    Capítulo 68    Capítulo 69    Capítulo 70
Capítulo 71    Capítulo 72    Capítulo 73    Capítulo 74    Capítulo 75    Capítulo 76    Capítulo 77
Capítulo 78    Capítulo 79    Capítulo 80    Capítulo 81    Capítulo 82    Capítulo 83    Capítulo 84
Capítulo 85    Capítulo 86    Capítulo 87    Capítulo 88    Capítulo 89    Capítulo 90    Capítulo 91
Capítulo 92    Capítulo 93    Capítulo 94    Capítulo 95    Capítulo 96    Capítulo 97    Capítulo 98
Capítulo 99    Capítulo 100  Capítulo 101  Capítulo 102  Capítulo 103  Capítulo 104  Capítulo 105
Capítulo 106  Capítulo 107  Capítulo 108  Capítulo 109  Capítulo 110  Capítulo 111  Capítulo 112
Capítulo 113  Capítulo 114


A seguir: Peter Throw é despertado a meio da noite por um toque do telemóvel. É uma mensagem, de origem desconhecida,  a avisá-lo que a sua vida corre perigo. Decide fugir, levando consigo o burro Castro e a sua namorada Branca.

11 setembro 2017

Bispo do Porto

Terminei há pouco este post que me faltava inserir no livro do Joãozinho e onde falava do Bispo do Porto.

Acabei de saber que faleceu esta manhã.

Vai ser Papa junto de Deus.

10 setembro 2017

a minha

Este é o capítulo final do livro Joãozinho, sobre a minha experiência de quase quatro anos como presidente da Associação Humanitária "Um Lugar para o Joãozinho" que tem por missão construir por via mecenática a ala pediátrica do Hospital de S. João do Porto.

A primeira conclusão a tirar deste livro - e que é talvez a única que se pode tirar com segurança -  é que o principal responsável por a obra não estar ainda feita sou eu, porque eu é que assumi o compromisso de a fazer e ainda não consegui.

O livro é dedicado ao meu neto Joãozinho, que tem tanto tempo de vida quanto o avô à frente da Associação do mesmo nome, quatro meses menos. Eu comecei em Janeiro de 2014 e ele em Maio, ambos no  Hospital de S. João.

Aquilo que até agora vivi de bem nesta experiência sobreleva largamente o mal que também encontrei pelo caminho. Conheci pessoas de uma bondade absolutamente extraordinária, mas foi a reacção das mães ao Joãozinho que sempre me impressionou mais e, a partir de certa altura, eu já conseguia antecipá-la. Primeiro, ficavam sérias e em silêncio, para logo depois irem fazer alguma coisa em favor dele.

Este livro não divide as pessoas entre pessoas boas e pessoas más. O mal existe em cada um de nós, entrelaçado com o bem. Em cada pessoa existe bem e existe mal. E, às vezes, praticamos o mal por ignorância, pela simples necessidade de sobreviver, por falta de julgamento e também por ideologia política e partidarismo.

O poder político, nas suas variadas manifestações, tem sido o principal adversário do Joãozinho, embora inicialmente tivesse ajudado. Não sei como vai acabar esta história, fica para desvendar no volume II. Mas não estou muito optimista no curto prazo. Por isso, vou deixar algumas previsões, parte das quais eu gostaria muito que saíssem erradas.

Primeira, o Ministro da Saúde nunca irá convocar  a reunião que prometeu para Setembro.

Segunda, o Dr. António Oliveira e Silva acabará por se demitir da presidência do Hospital de S. João.

Terceira - que é, a prazo, uma certeza -, o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista e o Partido Socialista, em conjunto, um dia deixarão de ser Governo em Portugal.

E eu?

Eu vou ficar aqui até fazer a obra.

O pacto que estabeleci com Deus, Ele parece tê-lo aceite. A tal ponto que até já cumpriu a sua parte.

Eu é que ainda não cumpri a minha.


Pedro Arroja
Porto, 10 de Setembro de 2017.

sarna

Agora que eram os responsáveis do Ministério da Saúde que me procuravam, e não eu a eles, a última coisa que eu queria era ser injusto, e tratá-los como eles me haviam tratado a mim.

Resolvi, então, ir consultar individualmente três pessoas, insiders do HSJ, que eram amigas desta obra e também do HSJ, e cujo julgamento eu respeitava. O meu propósito era dar-lhes a conhecer o resultado das minhas conversações com o presidente do Hospital e com o Secretário de Estado Fernando Araújo, e saber a sua reacção às condições que eu estabelecera.

Refiro-me ao professor Agostinho Marques, director do serviço de pneumologia, ex-director da Faculdade de Medicina, e presidente da Assembleia Geral da Associação Joãozinho; ao professor Nuno Montenegro, director do serviço de obstetrícia; e à professora Amélia Ferreira, directora da Faculdade de Medicina. Todos conheciam bem o Secretário de Estado Fernando Araújo que, além de médico do HSJ, era também seu colega na Faculdade de Medicina.

Todos, um a um e de maneira independente, consideraram as minhas condições absolutamente razoáveis. Claro que a Associação não podia abandonar tudo o que tinha feito sem condições, e que havia compromissos que tinham de ser respeitados.

E foi o professor Nuno Montenegro, que além de me receber individualmente, esteve também depois na minha reunião com a professora Amélia Ferreira, que acabou por concluir o óbvio: "Isto só se resolve numa reunião entre si e o Ministro da Saúde".

Era tão óbvio, e já devia ter sido tão óbvio há tanto tempo, que até doía pensar como todos tínhamos perdido quase dois anos sem qualquer avanço numa obra que todos desejávamos que fosse feita - e a perda maior tinha sido para as crianças internadas no HSJ.

Lembrei-me então daquele dia, meses atrás, em que eu propusera ao Dr. Oliveira e Silva que, se o Governo tinha dinheiro para fazer a obra, então que a fizesse em cooperação com a Associação, e em que ele reagiu prontamente com um abanar negativo da cabeça.

Mais tarde, ao reflectir sobre o significado daquele gesto tão espontâneo, pensei: "Não sei porquê...fazem tantas parcerias público-privadas na Saúde... nem eu nem a Associação Joãozinho temos alguma doença contagiosa...". Foi então que me dei conta que, talvez não tanto para o Partido que está no poder, mas certamente para aqueles que o apoiam, eu era um homem com sarna.

No princípio de Agosto, recebi um e-mail do Dr. Oliveira e Silva a dizer-me que o Ministro da Saúde aceitava encontrar-se comigo, pedindo, no entanto a presença dele e do presidente da ARS-Norte na reunião. Dispus-me imediatamente. Disse-me que, em virtude de nos encontrarmos em período de férias, o próprio Ministro convocaria a reunião em Setembro.

Fiquei na expectativa.

Da parte da Associação Joãozinho, o seu Projecto inicial, com o Continente ou sem o Continente, continua de pé e firme que nem uma rocha. Pronto a avançar a todo o momento.

chumbado

A cerimónia comemorativa do Dia Mundial da Criança teve lugar no dia 1 de Junho no Hospital de S. João. O Ministro não esteve presente, mas estiveram presentes os dois Secretários de Estado da Saúde, Manuel Delgado e Fernando Araújo. Serviu de tema a construção da ala pediátrica do HSJ.

Eu chamava agora a estas sessões as "sessões do salamaleque" e a ala pediátrica do S. João, ao longo dos anos, já tinha servido de mote para sessões desta natureza um grande número de vezes. Eram sessões em que as entidades oficias se mostravam para prometer uma coisa que não tinham a mínima intenção de fazer. Era puro espectáculo para a comunicação social.

Três entidades - o Ministério da Saúde, a ARS-Norte e o Hospital de S. João - juntavam-se nesse dia, mediante a assinatura de um protocolo, para construírem em conjunto a nova ala pediátrica do Hospital. Não passaria despercebido ao observador mais atento que, destas três entidades, uma mandava nas outras duas.

Eu estava já equipado no Bar da Praia da Sãozinha para iniciar a minha sessão de jogging quando vi a  notícia na RTP à hora do almoço, e sentei-me dois minutos. Não me parecia haver muita gente e, para além da estação oficial e da Lusa, poucos órgãos de comunicação deram relevo ao assunto. No dia seguinte, li a notícia no Diário de Notícias. Tinha o título "Hospital de S. João com nova ala pediátrica concluída em 2020"

Na fila da frente, vi o Bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos e pensei:

-Pobre Bispo...

Ele já tinha estado na cerimónia do lançamento da primeira pedra em 3 de Março de 2015 - a única "sessão de salamaleque" que tinha conduzido ao início efectivo da obra - e agora estava ali, outra vez, mais de dois anos depois, exactamente para o mesmo efeito.

Devia custar-lhe. Mas ele é uma pessoa muito bondosa. Daria um excelente Papa - já eu tinha pensado - e o nosso país, sempre tão fiel à Igreja Católica, há muitos séculos que não tinha um Papa.

Nas imagens, viam-se as entidades oficiais a assinarem o protocolo e a visitarem depois o barracão metálico onde as crianças estão presentemente internadas. O objectivo da sessão era claramente o de anunciar o início da construção da nova ala pediátrica do HSJ:

-Só se fôr no ar... e paga com vento...,

pensei eu enquanto, já de pé, fazia estiramentos em antecipação da correria que me preparava para iniciar.

Dias depois, o presidente do Hospital quis de novo falar comigo. E, desta vez, tinha verdadeiramente novidades para me dar. Duas.

Primeira, a condição 1) que eu estabelecera, tinha sido aceite.

Finalmente, o HSJ encontrara um local para deslocar o Serviço de Sangue e eu imaginei logo para breve as máquinas da Lucios e da Somague a entrarem por ali dentro e arrasarem com raiva aquele velho edifício térreo que tinha atrasado a obra durante  mais de ano e meio.

Segunda, vinha dar-me a conhecer o protocolo que tinha sido assinado no dia 1 de Junho e que, segundo ele, satisfazia a minha condição 3).

Li o documento com atenção. Continha o escalonamento da obra em três anos e os pagamentos que eram devidos em cada um deles. O financiamento pelo Estado iria fazer-se através de um aumento de capital do Centro Hospitalar de S. João, EPE, e isso pareceu-me um elemento de credibilidade - não contava para o défice.

O pior foi quando cheguei ao fim e olhei para quem assinava o documento. Pelo HSJ assinava o seu presidente. Pela ARS-Norte também assinava o seu presidente. Mas pelo Ministério da Saúde, não assinava nenhum Secretário de Estado - embora tivessem estado dois presentes na sessão - e muito menos o Ministro. Assinava uma funcionária.

Resultado: chumbado.

Show me

A Associação tinha dinheiro no Banco, não tinha era frente-de-obra. A condição 1) permitir-me-ia ir de volta aos mecenas e dizer:

-Todo o dinheiro que me entregaram foi empregue na obra... Depois, chegou o Estado com o saco do dinheiro dos contribuintes e decidiu pagar o resto...Eu aceitei.

A condição 2) permitir-me-ia honrar o contrato que a Associação assinara com o consórcio Lucios-Somague.

A condição 3) era aquela que os americanos chamam "Show me the money", para além de assegurar que, saindo a Associação do espaço da obra, a sua continuidade não ficaria protelada sine die.

Seria uma saída limpa para a Associação a qual se afastaria da obra, mas manteria depois a sua actividade  pagando a compra de equipamentos para a nova ala pediátrica, a contratação temporária de um ou outro especialista convidado, etc. 

Em meados de Maio estavam reunidas no gabinete do presidente do HSJ cinco pessoas. O presidente do Hospital, o Secretário de Estado Fernando Araújo, o presidente da ARS-Norte, Dr. Pimenta Marinho,  e eu próprio, acompanhado da minha colega Susana Almeida. Para proteger um homem, não há como uma mulher.

A discussão encalhou na condição 2). Era necessário lançar um concurso público - insistia o Secretário de Estado - e portanto, nós - Associação e consórcio Lucios-Somague - tínhamos de abandonar o espaço da obra.

Eu dizia-lhe que não. Primeiro, porque o Governo não ia começar uma obra nova, mas continuar uma obra já iniciada pela Associação. Segundo, porque a obra tinha sido sujeita a um concurso - privado, é certo, mas absolutamente limpo que até tinha sido submetido a escrutínio do Tribunal de Contas. Terceiro, lançar um concurso público (internacional) significaria diferir a obra por mais um ano.

Se houvesse vontade política para fazer aquela obra, o Governo tinha capacidade para legislar a dispensa de concurso público, invocando as condições excepcionais em que ela tinha sido lançada (v.g., por uma associação mecenática, mediante concurso privado submetido ao Tribunal de Contas, etc.)

Prometeu-me uma resposta quando voltasse ao Ministério. E assim aconteceu. Passados dias recebi do Secretário de Estado um e-mail, contendo em anexo um documento escrito por um jurista que dizia que em obras feitas pelo Estado tinha obrigatoriamente de ser lançado um concurso público internacional. Sugeria também uma nova reunião comigo no Porto.

Nem li o documento até ao fim. Telefonei-lhe a perguntar qual seria a agenda para a reunião que propunha. Respondeu-me que a mesma da última reunião. Perguntei-lhe se trazia algum elemento novo, respeitante à aceitação das três condições que eu enumerara. Disse-me que não. Então, não havia agenda para a reunião, respondi. E a reunião ficou sem efeito.

uma Comissão

Tudo junto, aquilo que o Dr. Oliveira e Silva me pedia significava a liquidação da Associação Joãozinho e da minha própria pessoa.

A pressão que exerceu foi grande. Chegou a mencionar a possibilidade de processos judiciais - como se o incumpridor fosse a Associação Joãozinho e não o HSJ. Obviamente, com a Cuatrecasas por trás, tudo era possível. E não deixou de salientar que, em termos públicos, o odioso da obra não se realizar recairia sobre mim.

Eu não acreditava que, por ele, pudesse fazer uma coisa destas.

Estava, de certeza, a cumprir ordens.

E estava de boa-fé. Ele acreditava que os seus superiores hierárquicos do Ministério da Saúde  - Ministro e/ou Secretários de Estado - lhe dariam o dinheiro prometido para fazer a obra. E esperava-o naquele Despacho do Secretário de Estado Manuel Delgado.

Porém, o Secretário de Estado Manuel Delgado, em lugar de lhe dar o dinheiro, deu-lhe uma Comissão.

E o Despacho, ao mesmo tempo que punha a descoberto uma mentira, abria outras. A Comissão iria ser nomeada para trabalhos que iriam consumir muito tempo, mas tinha de reportar dentro de 35 dias. Ora, nos vagares da administração pública, 35 dias não era tempo sequer suficiente para nomear a Comissão.

O Dr. Oliveira e Silva ficou muito decepcionado, e eu pude testemunhar a sua decepção. E também se devia sentir muito descredibilizado perante mim. Ele não iria poder manter-se naquela posição por muito tempo. A notícia do Público tinha sido um enorme bluff para pôr a Associação Joãozinho fora do Hospital sem que houvesse qualquer intenção imediata de o Ministério da Saúde fazer a obra, e muito menos  dispor do dinheiro.

Estivemos quase dois meses sem nos vermos até que, no início de Maio, voltou a contactar-me. Vinha pedir-me o mesmo, que a Associação Joãozinho abandonasse o espaço da obra porque no dia 1 de Junho, que era o Dia Mundial da Criança, o Ministro da Saúde  queria vir ao HSJ a uma cerimónia anunciar a construção da nova ala pediátrica do Hospital. E eu estava convidado.

No meu espírito, rejeitei liminarmente o convite, e continuava a não acreditar no que ouvia. Aos meus olhos, o Dr. Oliveira e Silva estava em vias de se transformar num "pirata mau".  E ele pressentiu isso, por isso me disse logo que o Secretário de Estado Fernando Araújo estava disposto a vir ao Porto falar comigo.

Por outras palavras, o Dr. Oliveira e Silva que até aí também tinha sido um obstáculo a que a Associação Joãozinho fizesse a obra, saía da frente e passava o caso para a hierarquia. Aceitei a reunião. Agora, já não era eu que ia ao Ministério da Saúde, era o Ministério da Saúde que vinha a mim.

Mas para que não perdêssemos tempo, enviei-lhe um e-mail com as condições mínimas para cooperar, e pedi-lhe que o remetesse ao Secretário de Estado. As condições eram as seguintes:

1) Que o HSJ desimpeça o espaço e a Associação Joãozinho possa prosseguir a obra até exaurir os recursos financeiros que lhe foram confiados pelos mecenas para esse fim.

2) Que o HSJ dê continuidade à obra assumindo a posição contratual que a Associação possui com o consórcio Lucios-Somague.

3) Que a Associação disponha de um compromisso oficial - que não seja apenas verbal - de que o Ministério da Saúde assegura a continuidade imediata da obra e o seu pagamento até ao fim.

a outra face

Cristo bem nos ensinou que, quando alguém nos desse uma bofetada numa face, devíamos oferecer a outra. Mas, quando chegou a vez dele e, durante o seu julgamento, um guarda lhe pregou uma bofetada numa face, ele não ofereceu a outra. Protestou.

Existe, pelo menos, uma lição a tirar deste episódio, como de todas as situações da vida de Cristo - é mais fácil ensinar do que fazer,  e muito mais fácil recomendar aos outros que façam aquilo que nós não somos capazes de fazer.

A obra do Joãozinho tinha começado como uma obra de amor, que é aquilo que praticamente toda a humanidade sente em relação a uma criança. Por isso, eu ressentia bastante que, por esta altura, em certas situações,  eu próprio já andasse a utilizar uma linguagem bélica.

E este era um dos momentos. Tinha de ser. Era a oportunidade perfeita para um certo ajuste de contas que há muito tempo era devido. O disparo tinha de ser certeiro e fatal.

Escrevi assim num e-mail dirigido à Margarida Gomes do Público, com conhecimento ao seu director, David Dinis:

Margarida,
Afinal, isto é tudo mentira.
Não existe financiamento público para a construção da Ala Pediátrica do Hospital de S. João, como hoje ficou claro.
Não tem vergonha de andar a reportar mentiras?
Não deve ficar admirada que, nos EUA, o Presidente Trump trate abaixo de cão os seus colegas que  assim procedem.
Cumprimentos.

O David Dinis respondeu e pude aperceber-me de que não gostou.

Que engraçado, pensei. Não lhes custava nada fazer-me passar em público como um traficante de terrenos, mas ficavam muito sensibilizados se, mesmo em privado, eu lhes devolvesse na mesma moeda.

"Façamos aos outros aquilo que não gostamos que nos façam a nós", parecia ser o lema deles. Mas este é precisamente o oposto do lema que suporta todas as civilizações sem excepção, incluindo a civilização cristã, que é a nossa.

Nunca mais a Margarida Gomes reportou sobre o Joãozinho. Foi substituída pela sua colega Natália Faria.

Mais outro obstáculo tinha sido removido do caminho.

boa-fé

As três pessoas que tinham estado naquela conversa queriam fazer a obra do Joãozinho, disso não havia dúvidas nenhumas. Na realidade, o problema agora era de fartura. Se durante anos não havia quem a  fizesse, agora havia dois candidatos a fazê-la - a Associação Joãozinho e o Governo.

Saímos daquela reunião com a promessa de dar uma resposta ao Dr. Oliveira e Silva sobre aquilo que nos pedia. Eu tinha de falar com os outros membros da direcção e  aconselhar-me com alguns mecenas mais chegados à Associação acerca do que fazer. O Eng. Filipe Azevedo disse-me que iria informar a Somague mas que, em princípio, o que eu decidisse estaria bem para ele. O importante era que a obra fosse feita.

Por isso, da segunda vez que me encontrei com o Dr. Oliveira e Silva - estávamos já no início de Março - fui sozinho. Eu permanecia céptico acerca da notícia da Margarida Gomes. Ele estava mais crente do que nunca, e até me informou que estava iminente a publicação de um Despacho do Secretário de Estado da Saúde a confirmar a disponibilidade do financiamento público para a construção da ala pediátrica do HSJ.

Eu estava agora ali para lhe transmitir a posição da Associação acerca do pedido que ele me tinha feito. Comecei por lhe dizer que se o Governo tinha dinheiro para fazer a obra, então que a fizéssemos em conjunto - o Governo e a Associação Joãozinho -,  e preparava-me para elaborar sobre as modalidades possíveis desta cooperação quando o Dr. Oliveira e Silva abanou prontamente a cabeça e nem me deixou prosseguir.

Este abanar de cabeça foi uma imagem que me ficou no espírito, e um momento definidor, para eu próprio mais tarde responder à questão: "O Dr. Oliveira e Silva estava ali a decidir com autonomia ou, pelo contrário, a executar decisões da hierarquia, isto é, do Ministério da Saúde?".

A solução que ele pretendia que fosse seguida - a retirada sem condições da Associação do terreno da obra  - punha problemas muito difíceis de resolver porque, na prática, significava o seguinte, em português escorreito:

Primeiro, rasgar o protocolo tripartido assinado entre o HSJ, a Associação Joãozinho e o consórcio Lucios-Somague.

Segundo, rasgar o contrato de empreitada celebrado entre a Associação e o consórcio construtor.

Terceiro, rasgar os acordos de mecenato celebrados entre a Associação e vários dos seus  mecenas.

Quarto, a Associação renunciar à sua missão estatutária, que era a de fazer a ala pediátrica do HSJ. 

Na verdade, perante os mecenas que entregaram dinheiro à Associação para fazer a obra,  como é que eu iria responder?

Talvez assim:

-Olhem... atirei para lá um milhão de euros... fiz uns trabalhos de demolição ... e depois virei costas ...abandonei tudo ...e vim-me embora...

Eu penso que haveria aqui lugar para que os mecenas me movessem processos judiciais e me exigissem até a restituição do dinheiro que me tinham entregue para uma finalidade que eu não cumpri e simplesmente abandonei.

(À saída, pensando com os meus botões, até imaginei que o primeiro poderia ser o próprio HSJ - não pela mão do Dr. Oliveira e Silva, mas por outra qualquer. Não me era difícil sequer imaginar a sociedade de advogados que se ofereceria prontamente para fazer o trabalho de graça.)

Não me era fácil atender a pretensão do Dr. Oliveira e Silva. Além disso, estávamos ali a especular porque eu não acreditava que o Governo tivesse o dinheiro.

Que não, que não, dizia o Dr. Oliveira e Silva pleno de boa-fé, estava para sair o Despacho do Secretário de Estado a garantir o financiamento público para a obra.

E foi na expectativa do Despacho que nos separámos naquele dia.

O Despacho do Secretário de Estado Manuel Delgado acabaria por sair dois dias depois. Dizia que a ala pediátrica do HSJ era uma entre cinco obras no país que iriam ser objecto de decisão política. Para isso, iria ser constituída uma Comissão que iria avaliar a viabilidade técnico-económica da obra e estudar as formas do seu financiamento.

Ao ler o Despacho, e ao relê-lo, senti pena pelo do Dr. Oliveira e Silva. Enviei-lhe um e-mail a dizer: "Como vê, não existe garantia nenhuma de financiamento público", que era uma forma eufemística de lhe dizer "Como vê, era tudo mentira".

Filipe Azevedo

Nesta reunião tinha estado presente o Eng. Filipe Azevedo, líder do consórcio Lucios-Somague, um dos grandes e mais dedicados mecenas do Joãozinho.

Tinha-o conhecido três dias depois de a Teixeira Duarte me ter pregado aquela partida de me exigir uma garantia de cinco milhões de euros a poucos dias do início da obra, e tinha sido ele, juntamente com o Eng. Vieira de Sá, que eu já conhecia, a salvar-me daquela situação difícil.

Nessa altura, veio ao meu escritório logo que regressou de França onde tinha ido acompanhar uma obra que a Lucios tinha lá a correr. Eu esperava um homem na casa dos 60 anos, talvez mal-encarado, que era a ideia que eu fazia do presidente de uma construtora, agora que já conhecia alguns.

Fiquei surpreendido quando, à porta do meu gabinete, recebi um homem ainda jovem, na casa dos quarenta anos, alto, encorpado, vestido de modo casual e sorridente, que vinha acompanhado de um colaborador.

Disse-me que sim a tudo o que lhe pedi. Como homem distintamente do norte, era um orgulho para ele fazer aquela obra, ainda por cima da maneira que eu lhe propunha, e tendo as crianças do S. João como destinatárias. Ele próprio era pai de três filhos ainda em idade pediátrica.

O Eng. Filipe Azevedo representava a terceira geração de uma empresa familiar que tinha sido fundada pelo seu avô e que tinha a sua sede mesmo ali perto do Porto, na Maia. O pai tinha-se retirado há poucos anos (e viria a falecer recentemente). A Lucios era uma empresa muito visível em obras do norte do país, embora não tivesse a dimensão da Somague, da Mota-Engil ou da Teixeira Duarte.

Foi um instante enquanto se estabeleceu uma grande empatia e uma grande relação de confiança entre nós e eu senti que o Eng. Filipe Azevedo gostava tanto daquela obra quanto eu. Meses mais tarde, um episódio seria revelador. Encontrei um colega de Faculdade que também o conhecia e que tinha estado recentemente com ele. Tinham falado sobre a obra do Joãozinho e o meu colega perguntou-lhe como é que se tinha envolvido nela. Ele terá respondido: "Eu, com o Pedro Arroja, vou a todo o lado". Esse sentimento era recíproco, observei ao meu colega.

À medida que nesse dia escutava o Dr. Oliveira e Silva, e ouvia o que ele tinha para me pedir,  vários sentimentos afluíram ao meu espírito, e um deles era o de vergonha,  o de um embaraço sem limites, perante o Eng. Filipe Azevedo, que estava sentado à minha esquerda.

Depois de todo aquele trabalho, depois de todo aquele dinheiro, depois de todos aqueles mecenas, depois de toda aquela intensidade emocional posta ao serviço do Joãozinho, depois de termos iniciado a obra vencidas que foram enormes dificuldades, depois de  vermos a obra parada há quase um ano porque o HSJ não cumpria aquilo que assinara - depois de tudo isto -, o que o Dr. Oliveira e Silva me estava a pedir é que a Associação Joãozinho, na sua qualidade de "Dono da Obra", desaparecesse dali para fora para nunca mais voltar. Quanto ao consórcio Lucios-Somague poderia sempre apresentar-se ao concurso público que o Governo iria lançar para fazer a obra.

O que é que o Eng. Filipe Azevedo estaria a pensar?

Provavelmente que "o lado" a que eu o tinha levado era, afinal, um grande fiasco para si, para a sua empresa e para todos aqueles que, como ele,  se tinham envolvido intensamente com o Projecto Joãozinho para o qual eu os arrastara.

O Dr. Oliveira e Silva é uma pessoa muito delicada. Por isso mesmo, estou certo que até hoje ainda  não se deu conta da violência que estava a cometer sobre mim nesse dia.

09 setembro 2017

ironias

A vida tem muitas ironias, a provar que nós nunca seremos donos do nosso próprio destino. Pensamos que a vida segue um curso, e ela segue outro, às vezes radicalmente oposto, e não é raro que dê uma volta inteira de regresso ao ponto de partida.

Duas grandes ironias iriam agora ocorrer na minha vida, e ambas em consequência do artigo da Margarida Gomes.

Nos últimos meses, na esfera pública pelo menos, eu tinha sido completamente votado ao ostracismo, juntamente com a Associação a que presidia, e totalmente afastado dos destinos da nova ala pediátrica do Hospital de S. João para a qual tinha trabalhado intensamente ao longo dos últimos três anos.

Durante esse período eu ressentia o Ministério da Saúde e o HSJ fazerem tábua rasa de todo o trabalho que tantas pessoas tinham dado à obra do Joãozinho, do dinheiro de tantos mecenas não contar para nada, da generosidade e do empenho de tantas pessoas valer zero.

Havia um aspecto, talvez menos importante, mas que eu ressentia também. Era a confusão que propositadamente se lançava em público entre o projecto da Associação para a construção da nova ala pediátrica e o Continente. A mensagem que se passava era a de que, como o Dossier Continente tinha sido chumbado em razão de doutos pareceres jurídicos, a Associação não tinha meios para fazer a obra.

E isto era falso. O Continente nunca foi condição sine qua non para a realização da obra e só pagava cerca de metade dela (cerca de dez milhões de euros em vinte). O Continente apenas antecipava o prazo de pagamento da obra, mas a Associação iria ter os meios para a pagar sem ele. Assim a obra estivesse a andar.

O problema da Associação não era, nem nunca foi, o da falta de dinheiro, mas sim o da falta de frente-de-obra, porque o HSJ não desocupava o espaço e a obra não podia progredir.  Mas era conveniente para a propaganda misturar as duas coisas.

Para este clima de opinião e para que eu e a Associação Joãozinho tivéssemos sido afastados durante meses dos destinos da construção da ala pediátrica do HSJ tinha contribuído, e muito, a jornalista Margarida Gomes do Público.

Pois bem, a primeira ironia era a de que seria agora pela mão da jornalista Margarida Gomes que eu e a Associação Joãozinho seríamos reintroduzidos no processo.

Poucos dias depois de a notícia ter saído, eu recebia um e-mail do presidente do HSJ  a pedir para falar comigo. Depois de sete ou oito meses no isolamento, a Associação Joãozinho era finalmente chamada à obra para a qual tinha sido constituída, que era a sua missão, e pela qual  tanto se vinha batendo.

O Dr. Oliveira e Silva é uma pessoa muito delicada, e eu - talvez, às vezes, não parecendo - não sou muito menos. Em vista da notícia que tinha vindo a público, segundo a qual o Governo acabava de disponibilizar o dinheiro para fazer a obra, ele vinha pedir-me que levantasse o estaleiro da obra e abandonasse o terreno do Hospital porque teria de ser lançado um concurso público e respeitados os procedimentos em obras do Estado.

Discutimos a veracidade da notícia, mas ele não sabia mais do que aquilo que tinha lido no jornal. Eu respondi-lhe que não acreditava que fosse verdade. Na realidade, eu já lhe tinha dito meses antes que, em resultado das duas vezes que tinha estado no Ministério da Saúde, a minha convicção era a de que, enquanto esta equipa ministerial se mantivesse, ele nunca receberia um cêntimo que fosse para obras no HSJ. Não o receberia para renovar as catacumbas - que era assim que eu chamava aos pisos inferiores degradados do HSJ - e muito menos para uma obra nova.

Separámo-nos nesse dia com o compromisso de nos encontrarmos em breve para debatermos o assunto.

Já cá fora, quem me tivesse estado a ouvir, certamente que teria uma pergunta muito pertinente para me fazer, e que seria a seguinte:

-Mas se você acha que é mentira... que eles não têm o dinheiro nem querem fazer a obra... por que é que terão lançado a notícia para a comunicação social?....

A resposta a esta questão, eu tinha-a na ponta da língua:

-Para depois virem dizer que não fazem a obra por minha causa...

Esta era a segunda ironia.

um dedo

Leia primeiro isto.

E depois isto.

Esse Peter Throw parece que tem um dedo que adivinha.

(Se procurar no blogue vai encontrar outros posts que complementam o primeiro - estão escritos em estrangeiro - onde se relata a história desse grande herói chamado Peter Throw, temporariamente fugido à justiça, sempre acompanhado pelo seu burro Castro)

week

Top-5 of the week:

1
2
3
4
5

sugestão

Isso precisa de ser colocado numa plataforma com mais impacto como facebook e precisa de ser traduzido para inglês. 

uma fada

A minha situação era agora a de espectador das notícias que iam saindo sobre o Joãozinho, já que eu tinha deixado de contar para o assunto. E também  de espera, talvez chegasse o dia em que eu fosse reintroduzido na equação outra vez. Os protagonistas eram agora a administração do HSJ e o Ministério da Saúde, mais este do que aquele.

Não tive de esperar muito tempo. No dia 19 de Janeiro a Margarida Gomes  - sempre ela - fez um  artigo de página inteira no Público onde descrevia as condições deploráveis em que se encontravam as crianças internadas no HSJ. Ora, desde há um tempo que sempre que a Margarida Gomes reportava sobre o Joãozinho, eu desconfiava que fosse verdade.

Mas este, no essencial, era verdade. Só que não trazia novidade nenhuma, excepto num ou noutro pormenor. Como era Inverno, ela lá conseguiu juntar um ou outro detalhe mais escabroso. Chovia dentro do barracão metálico que servia de ala pediátrica ao HSJ - ele próprio já tinha passado o prazo de validade - e, às vezes, faltava o aquecimento. Ora, chuva e frio no corpo não são propriamente a melhor terapia para crianças que se encontram internadas num Hospital.

Porém, o melhor estava para vir, e viria ainda no mesmo dia. Pelas sete da tarde - antes que alguém soubesse e publicasse no dia seguinte na versão em papel da concorrência -, a Margarida Gomes publicava na versão online do Público um outro grande artigo sobre a ala pediátrica do HSJ e este era verdadeiramente bombástico: "Governo liberta 21 milhões para tirar crianças dos contentores no S. João".

Adorei o título, eu que, às vezes, sou considerado o pai do neoliberalismo em Portugal: "Governo liberta...". A ideia de ver dinheiro a voar era muito mais realista do que aquela outra, que eu também já tinha considerado como hipótese teórica, de algum dia ver porcos a voar. E muito mais excitante  porque eu próprio também podia apanhar algum.

Julgo que foi o último artigo que a Margarida Gomes publicou sobre o Joãozinho porque a partir daí foi uma colega sua, chamada Natália Faria, que passou a reportar sobre o tema. Mas foi uma saída em grande, terminando de forma gloriosa uma carreira de vários anos reportando para o seu jornal sobre o assunto.

Esta notícia viria a ser para mim motivo de diversão. Não apenas pela coincidência dos dois artigos no mesmo dia. Era como se uma fada de manhã lhe tivesse soprado ao ouvido: "Margarida... reporta sobre as   crianças do S. João... porque a solução vem a caminho...". E à tarde, a mesma fada lhe viesse entregar o milagre. Tinha sido o Governo a fazê-lo.

Não apenas pela coincidência dos dois artigos no mesmo dia... - dizia eu - ... Mas também porque só podia ser mentira. O Orçamento do Estado tinha sido aprovado meses antes e as despesas de investimento público tinham levado um grande corte, especialmente na Saúde. O orçamento de investimento do Ministério da Saúde era apenas de 80 milhões de euros para o ano inteiro.

Mesmo este estava a ser objecto de cativações, isto é, as verbas orçamentadas não estavam a ser libertadas, o que já estava a levar a demissões e a ameaças de demissões de várias administrações hospitalares, como sucedia nos Hospitais de Gaia e do Algarve.

Ora, a verba de 21 milhões de euros representava mais de um quarto do orçamento de investimento anual do Ministério da Saúde e nem sequer estava orçamentada. Onde é que o Ministro iria buscar esse dinheiro, a meio do mês de Janeiro e com o ano orçamental já em curso?

Só se o tirasse do chapéu.

Não fosse a  Margarida Gomes estar mais determinada em fazer propaganda do que em verificar factos e reportar a verdade aos seus leitores, e ela própria teria concluído que aquilo que estava a reportar só podia ser mentira.

Eu tenho, porém, de ser justo com ela. A Margarida Gomes não é uma mulher ingénua. Ela devia saber que naquela altura o Governo estava a cortar drasticamente no investimento público. Pois se ela até tinha recentemente descoberto e exposto perante o país um perigoso traficante de terrenos públicos... como não havia de saber disso?

Tinha de saber. Portanto, a conclusão a tirar era a de que ela estava conluiada com os responsáveis do Ministério da Saúde para fazer passar cá para fora esta mentira.

Meses depois, numa reunião bastante tensa - como eram então as minhas reuniões com os responsáveis da Saúde - com o Secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Fernando Araújo, mencionei-lhe esta mentira. Ele entregou prontamente o jogo:

-Sim... de facto ... essa saiu muito mal...

08 setembro 2017

Petit Jean

À medida que o final do ano de 2016 se aproximava, eu sentia que todas as portas se tinham fechado e que, naquele momento, não havia nada que eu pudesse fazer. A Associação continuava com o estaleiro instalado no recinto da obra, mas o HSJ não iria desocupar o espaço. O Dossier Continente tinha sido boicotado. Não fazia sentido eu andar a angariar mecenas para uma obra parada.

Tudo estava em suspenso e a suspensão tinha custos. O consórcio Lucios-Somague absorvia os custos do estaleiro, ao abrigo da sua contribuição mecenática. Mas uma obra destas vive do momentum, da  emoção e do entusiasmo que causa nas pessoas. O tempo mata-a se, entretanto, nada acontece. E nada acontecia da parte da Associação.

O ano de 2016 tinha sido definitivamente o pior ano dos três que eu levava à frente da Associação Joãozinho. Naquela altura, só me restava esperar. Saber esperar é uma virtude - mas não é certamente a minha maior virtude.

Quem falava agora acerca do Joãozinho era o Ministro da Saúde cada vez que vinha ao Porto e era inquirido pelos jornalistas. A mim, os jornalistas nem me procuravam. Era como se não existisse. Durante o ano, eu tinha perdido as três jornalistas que melhor conheciam o Joãozinho e que mais verdadeiramente reportavam sobre ele.

A Hermana Cruz do JN e a Joana Pulido da Lusa tinham mudado de secção, e eu próprio no Verão tinha cessado os meus comentários no Porto Canal, e agora só via a Fátima Ribeiro de Almeida esporadicamente. Muito influenciado pela Margarida Gomes do Público, ia-se gerando um clima de opinião segundo o qual a obra iria ser feita pelo Governo e a Associação Joãozinho não contava para nada.

As declarações do Ministro da Saúde sobre o Joãozinho causavam-me arrepios, sobretudo pela ingratidão que representavam em relação aos mecenas. Mas também pela ignorância e pelo desprezo que revelavam em relação ao trabalho da Associação. Nunca falou comigo para que eu lhe pudesse explicar em que consistia o Joãozinho. As suas declarações eram pura e simplesmente levianas.

Numa altura em que a minha secretária se batia para arranjar uma reunião com o Secretário de Estado Manuel Delgado - a qual nunca chegou a acontecer -, ele declarava no Porto que o Ministério  iria receber a "Comissão", querendo com isso significar a Associação.

Por outro lado, a minha obsessão em fazer aquela obra era tal que um dia, a propósito de uma manchete sobre o Joãozinho, produzida por declarações do Ministro, eu fui o protagonista de um episódio caricato.

O Ministro tinha declarado que o Joãozinho era um problema para resolver e eu entendi que ele queria dizer com isso que o barracão metálico onde as crianças estavam internadas era um problema para resolver. E, triunfante,  disse às minhas colegas da direcção: "E nós somos a solução!".

Elas foram ler as declarações do Ministro, e dias depois, chamaram-me à realidade. O que o Ministro queria dizer era que a Associação Joãozinho (que continuava com o estaleiro instalado no local da obra) era um problema para resolver. A solução era ele, que iria fazer a obra, a Associação Joãozinho sendo o obstáculo. Fiquei tão abatido quanto envergonhado.

Dias depois da obra ter sido interrompida em Março, eu escrevi um  texto no  blogue Portugal Contemporâneo para desabafar a minha frustração. Ainda hoje me orgulho do que escrevi - sintético, verdadeiro, directo ao ponto - e que terminava assim: "A minha próxima tarefa, que não estava prevista, é tirar o Governo do caminho". Agora, no final de 2016, nove meses depois, este sentimento era ainda mais forte.

Naquela altura eu já tinha tirado vários obstáculos do caminho. Antecipando um pouco da história, dentro de três meses, eu viria a tirar do caminho mais outro obstáculo - a jornalista Margarida Gomes do Público.

Quem agora verdadeiramente impedia o progresso da obra, tal como concebida pela Associação, era o Ministério da Saúde - uma  ordem sua e o HSJ desimpediria imediatamente o espaço. Mas para confrontar o Ministério da Saúde, eu precisava de motivos.

Já tinha um, aquela palhaçada jurídica - para utilizar uma expressão que recentemente me tinha levado ao DIAP - que se traduziu no chumbo do Dossier Continente. Mas precisava de mais. Talvez o ano de 2017 me trouxesse mais mentiras vindas do Ministério da Saúde.

Seria então o momento de eu vir a público - já que os jornalistas não me ligavam nenhuma - e arrasar as mentiras do Ministério da Saúde acerca do Joãozinho. Eu acredito que a Verdade e o Bem acabam por triunfar.

Desde o momento em que abracei o Projecto Joãozinho que antecipei que iria envolver-me em alguns combates públicos,  e quem se envolve em combates dá e leva - e ultimamente eu só tinha levado. De maneira nenhuma eu queria as minhas colegas da direcção expostas publicamente por causa do Joãozinho, e muito menos os mecenas.

Por isso, eu sempre me assumi, para o bem e para o mal,  como a face pública do Joãozinho desde o momento em que ele passou a estar sob a tutela da Associação de que sou presidente. Em termos de comunicação pública, a política vigente na Associação Joãozinho foi sempre, desde o início,  uma política inspirada no rei Louis XIV: "Petit Jean c'est moi!"

Até hoje

Enquanto eu e o Eng. Folhadela aguardávamos numa das salas de espera do Ministério da Saúde, que a secretária nos viesse buscar e conduzir ao gabinete do Secretário de Estado Manuel Delgado, apareceu o seu chefe-de-gabinete, Dr. Poole da Costa, a pedir muita desculpa, mas o Senhor Secretário de Estado tinha tido um compromisso oficial urgente, e não poderia estar presente. Ele próprio nos receberia.

A hipocrisia anda sempre associada à cobardia.

Ultimamente, eu gostava de ter o Eng. Folhadela comigo nas reuniões e ele disponibilizava-se sempre que podia. Permitia-me apontar ali, e em concreto, um dos grandes mecenas do Joãozinho, a RAR - 500 mil euros em dez anos, a primeira prestação já paga, a segunda suspensa até a obra recomeçar.

Eu não queria acreditar que um Estado virtualmente falido, sem dinheiro para mandar cantar um cego, a reduzir fortemente o investimento público, sobretudo na área da Saúde e, portanto sem meios para fazer o Joãozinho, pudesse deitar fora perólas como esta.

Tinha sido o Dr. Poole da Costa a informar o presidente do Hospital do despacho de indeferimento do Dossier Continente por parte Secretário de Estado. Mas quem o visse agora a folhear o dossier que o Ministério da Saúde possuía sobre o assunto,  parecia que não tinha nada a ver com aquilo e que era a primeira vez que lhe tocava. A capacidade de dissimulação de certas pessoas parece-me, às vezes,  impressionante.

Fui directo ao assunto, gostava de saber o teor do Parecer da Cuatrecasas feito pelo Dr. Vasco Moura Ramos. Procurou o documento no dossier que tinha nas mãos e começou a lê-lo rapidamente e em voz alta,  enquanto eu olhava para o título à procura da palavra "Parecer" ou "Apreciação Preliminar" ou fosse lá o que fosse. Cheguei-me mais à frente na cadeira e deitei ostensivamente o olho enquanto ele ainda ia na primeira página. O documento tinha o título  "Nota Jurídica".

Era um arrazoado de três páginas acerca de grandiosos princípios jurídicos como o da transparência, de tal maneira que, quando acabou de o ler, foi o próprio Dr. Poole da Costa a dizer que o documento era inconclusivo, não dizia nem que sim nem que não ao Dossier Continente.

Por outras palavras, o Parecer feito por um Professor de Direito Público da Universidade de Coimbra - segundo a notícia da Margarida Gomes no Público - , que inviabilizou o Dossier Continente, era, na realidade, uma mera Nota Jurídica - um papelucho feito em cima do joelho - por um reles assistente universitário que não ousa dar a cara por aquilo que faz e que nem os princípios deontológicos mais elementares da sua profissão sabe respeitar.

Voltei a falar do Projecto Joãozinho, de tudo aquilo que a Associação tinha conseguido, da obra que continuava parada, e certamente do Dossier Continente - uma alavanca tão grande do Projecto Joãozinho que no prazo máximo de três anos as crianças estariam internadas num moderno edifício totalmente pago, e não mais no barracão metálico onde estavam há quase dez anos (havia mesmo uma menina que, devido à sua doença, vivia permanentemente lá).

O Dr. Poole da Costa foi-se deixando seduzir de novo pelo Joãozinho - ou assim aparentava. Disse-nos então que ele próprio iria levar o assunto ao Ministro. Era muito amigo do Ministro, tinha sido colega dele na administração do Hospital de S. Maria, quando o Ministro foi lá presidente do conselho de administração.

À saída, eu e o Eng. Vergílio Folhadela vínhamos animados. Antes de nos despedirmos, perguntei ao Dr. Poole da Costa quando é que poderia esperar uma resposta dele:

-Até ao final da próxima semana.

Até hoje.

day

Top-5 of the day:

1
2
3
4
5

Armanda Monteiro

Estávamos em meados de Setembro. A minha prioridade era agora a de chegar ao Secretário de Estado Manuel Delgado e deitar a mão àquele Parecer, já que as portas do Hospital de S. João se tinham fechado.

A minha secretária iria agora iniciar, junto das suas congéneres do Ministério da Saúde, a mais dura de todas as batalhas que travou ao serviço do Joãozinho - marcar a reunião com o Dr. Manuel Delgado.

Ao fim de mais de um mês, fazendo prova da mais vigorosa persistência, e depois de se ter pegado por mais do que uma vez com as secretárias do Ministério da Saúde - que arranjavam todas as desculpas para inviabilizar a reunião -, foi ela a prevalecer. A reunião acabaria por ser marcada para 27 de Outubro.

É altura de lhe prestar uma pequena homenagem e um agradecimento. Por esta altura, a obra estava parada há mais de seis meses e a Associação estava praticamente paralisada. Eu não saía para a rua a angariar mecenas com a obra parada. Todos os eventos que tínhamos planeado em nome do Joãozinho foram cancelados. Os acordos de mecenato foram suspensos. Acabámos por dispensar a única funcionária que a Associação tinha.

Todo o trabalho do Joãozinho passou agora a ser desempenhado pela minha secretária, que secretariava também outras pessoas dentro da minha empresa. Para além do trabalho, e não era pouco, que tinha de prestar à empresa que lhe pagava, ela assumia agora todo o trabalho da Associação Joãozinho sem um gesto de desagrado, e cumprindo-o com a eficácia e o sentido de missão que todos lhe reconhecíamos.

O Joãozinho tinha muitos mecenas como ela,  que não podiam dar mais do que o seu trabalho e o seu tempo - ou às vezes até uma simples palavra de incentivo - mas que o faziam com toda a generosidade  e determinação. Escusado será dizer, ela também era mãe, e as mães foram desde sempre as mais sensíveis e as mais dedicadas mecenas do Joãozinho.

Ainda ela estava a lutar para conseguir a minha reunião com o Secretário de Estado, e caía mais uma bomba sobre mim e a Associação Joãozinho. A jornalista Margarida Gomes publicava no Público um artigo de página inteira, e com chamada de primeira página, com o título "Joãozinho tenta fazer negócio com o Continente com terrenos que são do Estado".

Na véspera, a Margarida Gomes tinha-me telefonado para falar sobre o Dossier Continente. Dei-lhe todas as explicações e contei-lhe toda a história. Enviei-lhe o dossier por e-mail tal como o tinha remetido ao HSJ e ao Ministério da Saúde. Estava lá toda a informação e a informação verdadeira. À tarde, fez-me várias perguntas por e-mail e passei mais de uma hora a responder-lhe, e-mail cá, e-mail lá.

Como é que ela podia escrever uma coisa daquelas, sugerindo que eu tinha andado a traficar terrenos do HSJ com o Continente,  sem conhecimento da administração do HSJ?

Conheci-a mais de um ano antes a propósito do episódio do protocolo e do meu comentário no Porto Canal sobre o Paulo Rangel e a Cuatrecasas. Entrou-me pelo escritório dentro a fazer-me perguntas como se eu fosse um inimigo do Hospital de S. João. Vinha directa do Hospital.

Eu nem podia acreditar no que lia agora. Mas houve um pormenor que, verdadeiramente, me interessou. Eu andava concentrado em chegar ao Parecer do Vasco Moura Ramos. No artigo da Margarida Gomes, ele aparecia a falar sob anonimato e referia-se ao seu próprio trabalho, não como um Parecer, mas como uma "apreciação preliminar". Ora, existe uma diferença abissal entre as duas coisas. A um Parecer pode atribuir-se valor jurídico, mas uma "apreciação preliminar" não tem nenhum.

Na véspera da minha reunião com o Secretário de Estado, em que ia finalmente ter acesso ao Parecer, ou "apreciação preliminar" ou lá o que fosse, pedi à minha secretária para informar a sua congénere do Ministério da Saúde que iria acompanhado do Eng. Vergílio Folhadela, Presidente do Conselho de Mecenas da Associação Joãozinho, que nesse dia se encontrava casualmente em Lisboa.

A secretária do Ministério da Saúde respondeu-lhe que nem sequer tinha tomado nota daquela reunião na agenda do Senhor Secretário de Estado e que, portanto, o Senhor Secretário de Estado teria no máximo  cinco minutos para me atender.

Perante aquela informação inesperada, e enquanto mantinha a linha com o Ministério da Saúde, ligou-me pelo telefone interno para o andar de cima para me comunicar a notícia e saber a minha reacção:

-Diga-lhe que eu vou de propósito do Porto a Lisboa para falar com o Senhor Secretário de Estado... nem que seja só por um minuto!...

zero

O pior estava para vir e não viria só de uma assentada.

O Ministério da Saúde tomou  a decisão em tempo record. Numa carta com data de 22 de Agosto o Dr. Poole da Costa informava o presidente do HSJ do despacho do Secretário de Estado Manuel Delgado acerca do Dossier Continente. Concordando com o Parecer, o pedido de cedência do espaço era indeferido.

Quando, já em Setembro, o Dr. Oliveira e Silva me deu conhecimento desta carta por e-mail, eu estava sentado à secretária, e os meus ombros caíram. Desde que eu tinha dado o passo de concretizar a obra do Joãozinho, que as dificuldades se sucediam umas às outras e tinham todas a mesma procedência - a administração do HSJ, às vezes em conluio com a Cuatrecasas, e agora tendo pelas costas o próprio Ministério da Saúde.

-Então o Dr. Manuel Delgado - mais o seu chefe de gabinete, Dr. Poole da Costa - que tanto me tinha felicitado pelo Dossier Continente, que me tinha encorajado fortemente a prossegui-lo, era agora o mesmo que o inviabilizava, ainda por cima com base num Parecer cujo acesso me tinha sido negado, e sem me dar uma palavra sequer!?

-Safados!...

é o expletivo que me lembro de ter proferido na altura, sozinho no meu gabinete.

Mas o pior - verdadeiramente, o pior - estava ainda para vir e a poucos dias de distância. No dia 15 de Setembro compareci no DIAP de Matosinhos. O oficial de justiça veio-me receber à porta muito gentilmente, pediu-me desculpa pela demora - tinha estado mais de meia-hora à espera - e sentou-me a uma secretária em frente dele.

Tinha duas queixas-crime contra mim apresentadas pelo Dr. Paulo Rangel e pela sociedade de advogados Cuatrecasas, que ele descreveu brevemente.

-Pensei que era das deputadas do Bloco de Esquerda...

-Também cá deu entrada ... mas foi arquivada...

Passámos então aos detalhes e foi quando me dei conta de quem subscrevia a queixa por parte da Cuatrecasas: Paulo Rangel, Filipe Avides Moreira e Vasco Mouras Ramos.

-Vasco Moura Ramos!?

Desatei imediatamente a disparar sem perder o fôlego.

-Então este patife, tinha tido a distinta lata de se apresentar mês e meio antes, perante profissionais altamente qualificados reunidos no HSJ, a dar um Parecer sobre um trabalho de que eu era o principal autor, encontrando-se numa situação de conflito de interesses, e não a revelou a ninguém!?....

Fui por ali a falar sobre o Vasco Moura Ramos e a Cuatrecasas sem parar - eles deviam ter todos as orelhas a arder onde quer que se encontrassem -, enquanto o oficial de justiça me escutava em silêncio. Ao fim de alguns minutos, quando fiz uma pausa para ganhar fôlego, ele interrompeu-me delicadamente e disse-me:

-Olhe... se tem isso tudo para dizer ... o melhor é escolher não prestar declarações aqui... e dizer tudo isso perante um juiz de instrução...

Assinei a papelada que ele me pôs à frente e saí dali que nem um furacão, directo ao carro onde tinha o meu computador e, em seguida, entrei no Café mais próximo.

Tinha um e-mail para enviar ao Secretário de Estado Manuel Delgado e outro ao Dr. Oliveira e Silva. O texto era essencialmente o mesmo. Depois de lhes contar que tinha acabado de sair do DIAP, e o motivo por que lá tinha estado, terminava assim, em ambos os casos:

"Não conhecia pessoalmente o Dr. Vasco Moura Ramos. Estou agora desconcertado que ele tenha aceite dar um parecer sobre um trabalho de que eu sou o principal autor, e que nem sequer tenha dado a conhecer a situação de conflito de interesses em que se encontrava às pessoas que participaram na nossa reunião do final de Julho.
Muitos cumprimentos.
P. Arroja" .

No dia seguinte, depois de serenar a indignação, comuniquei-lhes que o valor que eu atribuía ao Parecer, que tinha servido de base para indeferir o Dossier Continente, era zero.

Nenhum deles me respondeu.

para morrer

No dia 28 de Julho, às três da tarde, estavam reunidos nas instalações da administração do HSJ os estados-maiores das três entidades envolvidas no Dossier Continente. Pelo HSJ, o seu presidente, Dr. Oliveira e Silva e o administrador, Dr. Luís Porto Gomes.

Pelo Continente, o seu presidente, Eng. Luís Moutinho, o administrador, Eng. Diogo Mendes, e ainda o Dr. Miguel Flórido, presidente da Sonae Retail Properties, a empresa do grupo Sonae que se encarrega da construção dos edifícios dos supermercados (o Continente  ocupa-se apenas da sua exploração comercial).

Pela Associação Joãozinho, os seus três directores, mais o Presidente do seu Conselho de Mecenas, Eng. Vergílio Folhadela, administrador do Grupo RAR, um dos grandes mecenas do Joãozinho.

Estávamos ali reunidos naquele dia para apresentar ao jurista contratado pelo HSJ o Dossier Continente e responder a todas as suas perguntas, a fim de que ele pudesse elaborar o Parecer que devia acompanhar o Dossier para o Ministério da Saúde.

Chegou quarenta minutos atrasado, sentou-se no topo da mesa,  e apresentou-se: Vasco Moura Ramos. Claramente, não sabia ao que vinha, embora o HSJ já dispusesse do Dossier há várias semanas e lho pudesse ter enviado, ou ele o pudesse ter pedido.

Dei-lhe uma cópia do Dossier, devidamente encadernado, e, sendo eu o principal autor do documento, fui eu sobretudo a  falar.

Para mim, falar de qualquer assunto respeitante ao Joãozinho era um prazer e sobre o Dossier Continente o prazer era exponenciado. Penso que, por vezes, corria o risco até de me tornar maçador porque mencionava todos os detalhes e até a génese da ideia cujo curso depois descrevia até ao ponto em que nos encontrávamos.

Assim fiz na naquele dia. Relatei a história, com todos os pormenores, pondo ênfase no facto de a operação ter sido aceite pelo Secretário de Estado da Saúde - o actual e também pelo anterior - e eu próprio indiquei ao Dr. Moura Ramos o enquadramento jurídico, exposto na carta que capeava o Dossier. Claro que não deixei de mencionar o precedente respeitante à Fundação McDonald.

Não me recordo de o Dr. Vasco Moura Ramos ter colocado qualquer questão significativa, provavelmente porque não tinha estudado previamente o Dossier. Aquele era claramente o seu primeiro contacto com ele.

Saímos da reunião cerca das quatro e meia da tarde e rapidamente dispersámos. Eram todas pessoas muito ocupadas aquelas que tinham estado ali, e todas pareciam ter outros compromissos nessa tarde. Depois de me despedir, saí a conversar com o Eng. Vergílio Folhadela que, a certa altura, me perguntou.

-Conhece este advogado ...?

-Não...

-Suponho que ele é da empresa de advogados do Paulo Rangel...

-A Cuatrecasas...?

-Sim...

Não liguei ao assunto. O meu comentário no Porto Canal sobre o Paulo Rangel e a Cuatrecasas  tinha ocorrido há mais de um ano e estava já fora do meu espírito. É certo que desde o mês anterior, eu tinha em casa uma convocatória do DIAP de Matosinhos para comparecer lá em Setembro. Mas eu pensava que era a queixa apresentada contra mim pelas deputadas do Bloco de Esquerda, que já tinha vindo nos jornais.

Chegando a casa, por curiosidade fui ver à internet. Lá estava, Vasco Moura Ramos, advogado da Cuatrecasas. Tinha ocupado também um lugar no Ministério da Economia do Governo de Passos Coelho. Se eu ainda tinha dúvidas que a Cuatrecasas era uma célula partidária, passei a ter menos.

Como universitário, chamou-me a atenção um pormenor do currículo do Dr. Vasco Moura Ramos - era assistente de Universidade de Coimbra há dezassete anos. Pensei: "Este é dos tais que nunca vai conseguir chegar a professor".

Dias depois, o presidente do HSJ informou-me por e-email que tinha acabado de enviar para o Ministério da Saúde o Dossier Continente acompanhado do Parecer do Dr. Vasco Moura Ramos.

Pedi-lhe para me enviar o Parecer.

Respondeu-me que estava impedido de o fazer por razões de sigilo profissional invocadas pelo jurista.

Fiquei para morrer.

E foi assim que parti para férias, estávamos já em Agosto.